Sinopse
Este é um capítulo difícil. Mas é importante para aquelas pessoas que gostariam de ver com seus próprios olhos o que está ocorrendo com o cérebro da pessoa com Transtorno Bipolar que pode ser diferente do que está havendo com aqueles que não têm essa condição.
A conclusão é: a psiquiatria está fazendo muitos progressos. Apesar de ser difícil apontar as diferenças no cérebro fazendo apenas testes como uma tomografia computadorizada ou uma ressonância magnética, existem hoje diferenças consistentes que são demonstradas para confirmar as indagações sobre Transtorno Bipolar – especialmente, que esta é uma condição na qual as emoções ganham muito poder sobre o comportamento. Eu sei, isso não é óbvio? Verdade, nós já sabíamos disso por experiência, como você certamente sabe também. Mas o que nós podemos ver agora é ao menos uma amostra do mecanismo do cérebro pelo qual isso ocorre: muita atividade nos centros emocionais e muito pouca atividade nos lobos frontais que deveriam ser capazes de inibir a ação. Além disso, essas diferenças estão presentes mesmo quando nenhum sintoma está presente.
Diferenças de tamanho
Primeiro as boas notícias: muitas das diferenças no tamanho do cérebro que foram demonstradas em muitos estudos de pacientes com problemas de humor podem ser revertidas ao menos em parte com o tratamento adequado. Segundo, a mensagem final por enquanto: há cada vez mais indícios que sugerem que cada episódio de sintomas de humor severo é associado com aumentos nessas diferenças de tamanho do cérebro e, portanto, uma busca intensiva de um bom controle dos sintomas pode ser associada com a prevenção de algumas das mudanças cerebrais que infelizmente parecem progredir em ao menos algumas formas de Trantorno Bipolar.
Apesar de ter levado anos para ter certeza, porque nem todos os estudos mostraram os mesmos resultados, os especialistas atualmente concordam que o cortex frontal (que está associado com a tomada de decisões e o controle do comportamento impulsivo) encolhe de tamanho quando o Transtorno Bipolar progride. Este é basicamente o mesmo resultado que foi visto em formas severas de depressão que não foram tratadas, como demonstrado no meu artigo sobre atrofia frontal na depressão.
Diversos estudos já demonstraram que o lítio parece ser capaz de reverter esta tendência de atrofia frontal (os estudos são citados no artigo sobre os efeitos do tratamento em depressão).
Diferenças na função
Pessoas com Transtorno Bipolar cometem erros ao interpretar as expressões no rosto das pessoas, ao menos em um teste experimental. Isso foi demonstrado diversas vezes, incluindo com crianças,McClure onde os seguintes resultados foram obtidos:

Como você pode ver, dadas as imagens que foram demonstradas neste estudo, todos cometem erros ao interpretá-las, mas as pessoas com Transtorno Bipolar cometem esses erros mais frequentemente. É interessante notar que a taxa de erros delas foi ainda maior do que de pacientes com transtornos de ansiedade, que não se diferenciaram muito do grupo de controle. Quando os rostos demonstrados exibiam expressões mais dramáticas, as pessoas com transtorno bipolar cometeram duas vezes mais erros do que as pessoas sem um problema de humor ou problemas de ansiedade.
Todas as descobertas acima foram identificadas até mesmo em crianças que não eram sintomáticas no momento do estudo. Em outras palavras, esta dificuldade com o reconhecimento de expressões pode ser uma das mais duradouras e permanentes partes da doença, não um sintoma. Entretanto, a taxa de erros pode ser mais particularmente evidente durante a mania. Altshuler, Fleck
É interessante notar que esses erros no reconhecimento facial parecem se reduzir com tratamento, ao menos com um dos tratamentos padrão para transtorno bipolar, a lamotrigina. Haldane
Tomando rápidas decisões sobre assuntos emocionais
Se você não está familiarizado com a leitura de uma dessas imagens, e não quer aprender (não é tão difícil, mas talvez não seja necessário), a conclusão aqui é: pessoas com Transtorno Bipolar, mesmo quando não têm nenhum sintoma, não parecem usar a parte frontal do cérebro quando estão tomando decisões sob pressão de tempo. Nessa atividade em particular, ao menos, elas não estavam usando a parte do cérebro conhecida por inibir a a ação impulsiva (não tanto quanto os indivíduos de controle).
Os pesquisadores estão se concentrando em regiões do cérebro que atuam de forma diferente em pessoas com Transtorno Bipolar em comparaçaõ com aqueles que não têm a doença. As evidências estão aumentando fortemente indicando que uma região do cérebro chamada de córtex pré-frontal medial tem baixa atividade em pessoas com Transtorno Bipolar mesmo quando elas não apresentam sintomas. Entretanto, para ver essas diferenças surgirem, o estudo de imagem do cérebro precisa ser feito quando os participantes estão trabalhando em uma tarefa que requer a tomada de decisões rápida sobre alguma coisa com uma atribuição emocional. Em um estudo recente, um grupo da Australia Lagopouloschegou ao seguinte resultado:

A região vermelha é o córtex pré-frontal medial. Você pode ver a porção dele que é mais ativa durante a tarefa em pessoas sem Transtorno Bipolar, comparada àqueles com a doença (a tarefa exigia uma complexa organização de palavras, algumas das quais tinha implicação emocional). A região azul/verde é o hipocampo, que estava mais ativo durante a tarefa com as pessoas com Transtorno Bipolar.
Os autores notaram que esta região do córtex frontal é considerada como importante em ser capaz de alterar o comportamento de uma pessoa de uma resposta de rotina para uma nova, flexível resposta baseada nas circunstâncias. Um dos meus pacientes, a quem eu mostrei esta imagem perguntou sobre a sensação de que ela não é mais capaz de realizar muitas tarefas simultâneas. Ela não pode confiar no cérebro dela para fazer escolhas entre rotina ou respostas flexíveis a menos que ela realmente se concentre. Ela salientou que as pessoas constantemente mencionam a habilidade de realizar muitas tarefas como um marco de inteligência; e infelizmente, o oposto também: se você não pode fazer muitas tarefas, você não é “esperto”. Cada vez mais, esta de certo modo sutil deficiência cognitiva está sendo reconhecida como uma das lamentáveis consequências do Transtorno Bipolar.
A medicação pode fazer a diferença, entretanto, ao menos de certa maneira. Em um estudo similar ao demonstrado acima, Strakowski pesquisadores compararam pacientes que não estavam recebendo medicação com aqueles que estavam. A seguinte série de fatias de ressonância magnética mostra regiões do cérebro que estão mais ativas naqueles que estão tomando medicação. Como você pode ver, uma região do cérebro similar àquela enfatizada acima, o córtex frontal medial, se tornou mais ativa com o tratamento. Outra região que muda substancialmente é o giro cingulado anterior, que foi demonstrado em outros estudos como protagonista do controle emocional.

Em geral a imagem que parece estar se demonstrando aqui é que as pessoas com Transtorno Bipolar estão trabalhando mais com seus centros emocionais quando fazem trabalhos básicos de pensamento, comparados àqueles que não têm a doença. Isto pode ser uma form de compensação pela atividade diminuída em regiões mais frontais do cérebro.
O Lado Positivo do Transtorno Bipolar
Não existem algumas boas notícias para aceitar isso tudo?
Essa é uma linha de pensamento popular, ultimamente. Vários autores escreveram recentemente sobre os benefícios da hipomania. (The Hypomanic Edge; Exuberance; The Bipolar Advantage; um artigo feito por um escritor de ciências do NY Times). Em geral, estes autores enfatizam o alto grau de produtividade e criatividade associados com Bipolar – como características. No último capítulo da minha pequena minissérie aqui, você vai ver uma especulação baseada em ciência sobre como os genes bipolares podem levar a esses resultados muito positivos socialmente.
Infelizmente, eu temo que para muitas pessoas com Transtorno Bipolar, esta linha de raciocínio não vá ajudar muito, e poderia ser prejudicial – se as pessoas olharem para este suposto benefício do Transtorno Bipolar e se perguntarem porque elas nunca viram nenhum desses tipos de benefícios em suas próprias vidas. Entretanto, eu devo admitir que uma das razões pelas quais eu me especializei em transtorno bipolar é porque parece que praticamente todas as pessoas que eu vejo com Transtorno Bipolar são excepcionalmente criativas ou inteligentes ou carismáticas ou algo assim. Algumas eram profundamente inteligentes a ponto de eu ter problemas em acompanhar seus raciocínios.
traduzido de PsychEducation.org



